O COMTUR decidiu, e agora? O guia prático para fazer a Prefeitura realmente ouvir o Conselho

Você já saiu de uma reunião do Conselho Municipal de Turismo com aquela sensação amarga de que, no fundo, nada vai realmente acontecer? As ideias são ótimas, os debates são ricos, a ata é registrada, mas, na prática, o turismo da sua cidade continua patinando, preso nos mesmos problemas de sempre.

É frustrante. Eu sei. Essa paralisia transforma o que deveria ser o motor do turismo local em um mero “Conselho Morto de Turismo”, uma sigla que existe na lei, mas que não tem vida, nem impacto.

Se você se identifica com essa realidade, saiba que existe um caminho. A diferença entre um COMTUR de fachada e um conselho que realmente influencia as políticas públicas não é sorte, nem depende apenas da “boa vontade” do gestor de plantão. É método, estratégia e posicionamento. 

Entender que o COMTUR não é da Prefeitura

Antes de qualquer estratégia, precisamos corrigir um erro de percepção fundamental. Muitos conselheiros e até mesmo gestores públicos acreditam que o COMTUR é um braço da prefeitura, um órgão para validar o que já foi decidido no gabinete. Isso não poderia estar mais longe da verdade.

O Conselho Municipal de Turismo é um espaço da sociedade, criado para garantir que o desenvolvimento do setor seja plural e representativo. Ele é formado pelo poder público, sim, mas também pela iniciativa privada e pela sociedade civil organizada. Seu papel, portanto, não é obedecer, mas sim:

  • Propor: levar novas ideias e projetos que nascem das necessidades reais do território.
  • Consultar: oferecer um parecer técnico e qualificado sobre as ações planejadas pela gestão.
  • Deliberar: tomar decisões estratégicas sobre o rumo do turismo no município.

A virada de chave começa quando os membros do conselho entendem que não precisam pedir permissão para agir. O poder do COMTUR não é um presente da prefeitura; é uma prerrogativa que precisa ser ocupada com responsabilidade e estratégia.

4 estratégias para ganhar voz e vez

Um COMTUR forte não nasce por decreto. Ele é construído com articulação e método. Se as decisões do seu conselho estão sendo ignoradas, é hora de aplicar estas quatro estratégias para fortalecer sua atuação.

1. Troque reclamações por propostas estruturadas

O erro mais comum de um conselho sem influência é focar no que está errado, sem apresentar um caminho claro para a solução. A gestão pública, muitas vezes sobrecarregada, tende a ignorar listas de problemas e a dar atenção para propostas que já vêm com um mínimo de estrutura.

O que é uma proposta estruturada?

  • Diagnóstico com dados: em vez de dizer “a sinalização turística é ruim”, apresente um mini levantamento com fotos, locais críticos e dados de como isso impacta negativamente a experiência do visitante.
  • Justificativa clara: mostre por que a sua proposta é uma prioridade. Qual problema ela resolve? Qual oportunidade ela gera?
  • Objetivos e metas: o que se espera alcançar com a execução do projeto? Aumentar o fluxo em 20%? Melhorar a avaliação online do destino?
  • Alinhamento estratégico: demonstre como a proposta se conecta com o Plano Municipal de Turismo ou com o plano de governo da gestão atual.

Quando você transforma uma reclamação em um projeto, você muda o seu papel de crítico para o de parceiro estratégico.

2. Articule o setor privado antes da reunião

Uma única voz pode ser facilmente ignorada. A voz de um setor unido, não. Antes de levar uma pauta importante para a reunião do COMTUR, promova encontros prévios com os representantes da iniciativa privada (hotéis, agências, restaurantes, guias).

Discutam a proposta, alinhem os argumentos e cheguem a um consenso. Quando o presidente do conselho ou o secretário de turismo percebe que a demanda não é uma opinião isolada, mas sim uma posição consolidada do trade, o peso político da pauta se multiplica. Essa articulação demonstra maturidade, organização e torna quase impossível que a proposta seja simplesmente descartada.

3. O que não está no papel, não existe: a importância da formalização

No universo da gestão pública, a informalidade é sinônimo de inexistência. Conversas de corredor e acordos verbais se perdem. Para que o COMTUR seja levado a sério, ele precisa dominar a “burocracia do bem”.

  • Pauta prévia: envie a pauta da reunião com antecedência a todos os membros. Isso permite que eles se preparem para os debates.
  • Ata detalhada: a ata não é um mero resumo. Ela é o documento legal que registra o que foi debatido, quem votou e, o mais importante, o que foi decidido.
  • Ofícios de encaminhamento: toda decisão do COMTUR que exige uma ação da prefeitura (ou de outra entidade) deve ser formalizada através de um ofício, citando a ata da reunião. Esse documento cria um registro formal da solicitação e exige uma resposta.

Essa prática cria um histórico, gera um senso de responsabilidade e impede que as decisões do conselho “morram” após a reunião.

4. Fale a língua da gestão pública: conecte as propostas ao orçamento

Muitas propostas são engavetadas com a justificativa da “falta de dinheiro”. Um COMTUR estratégico aprende a falar a língua do orçamento público para superar essa barreira. Entenda o básico sobre:

  • PPA (Plano Plurianual): o planejamento de médio prazo (4 anos) do município. O turismo precisa estar nele.
  • LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias): define as metas e prioridades para o ano seguinte.
  • LOA (Lei Orçamentária Anual): estima as receitas e fixa as despesas para o ano. É aqui que o dinheiro é alocado.

Ao criar uma proposta, pesquise se ela pode ser conectada a alguma meta já existente no PPA ou na LDO. Sugira que ela seja incluída na próxima LOA. Ao demonstrar que entende de onde os recursos vêm, o COMTUR se posiciona como um parceiro na gestão, e não apenas como uma fonte de despesas.

Do “Conselho morto” ao motor do turismo

Revitalizar um COMTUR e transformá-lo em uma força real de desenvolvimento não é uma tarefa fácil, mas está longe de ser impossível. Exige uma mudança de mentalidade: de uma postura passiva e reativa para uma atuação proativa, técnica e articulada.

Como eu sempre digo, a pergunta é: “quem é você na fila do pão do turismo?”. É aquele que espera as coisas acontecerem ou aquele que se organiza para fazer acontecer? O poder de um COMTUR não é dado, é conquistado. Com método, união e estratégia, seu conselho pode, sim, se tornar o verdadeiro motor do turismo no seu território.

Se você leu até aqui e sente que precisa de um guia ainda mais detalhado para estruturar, fortalecer e dar poder de ação ao seu conselho, eu compilei todo o meu método no Guia Completo do COMTUR. É um material prático, com modelos e o passo a passo para transformar seu conselho de uma vez por todas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *