Seu COMTUR só serve para tomar café e assinar ata? Veja como virar o jogo

Cenário comum em 80% dos municípios brasileiros: Terça-feira à noite, sala de reuniões da Prefeitura. Metade das cadeiras está vazia. O café já esfriou. O secretário lê a ata da reunião anterior, linha por linha, por 20 minutos. Alguém olha no relógio. Outro boceja. No final, todos assinam um papel e vão embora com a sensação de: “O que eu estou fazendo aqui?”.

Se essa cena lhe parece familiar, eu tenho uma má notícia: o seu Conselho Municipal de Turismo (COMTUR) está morto. Ele apenas esqueceu de deitar.

Um conselho fraco é o primeiro sintoma de um destino turístico estagnado. Quando a governança falha, o trade turístico se isola, a prefeitura trabalha sozinha e os projetos não têm continuidade.

Mas existe cura. Transformar um “clube do cafézinho” em uma mesa de decisões estratégicas exige mudar a cultura, o método e, principalmente, o poder da caneta.

1. O erro de nascença: Consultivo x Deliberativo

A primeira pergunta que faço quando chego em um município é: “Seu conselho é Consultivo ou Deliberativo?”. A resposta explica quase tudo.

  • Conselho Consultivo: ele apenas “dá opiniões”. O Prefeito ou Secretário escuta (se quiser) e faz o que bem entender. Isso gera uma frustração imensa nos conselheiros. Por que um empresário ocupado vai sair da sua empresa para dar uma opinião que será ignorada?
  • Conselho Deliberativo: ele decide. Ele tem poder de voto sobre diretrizes, aprovação de planos e, crucialmente, sobre o orçamento.

Se você quer engajamento real, lute para alterar a lei de criação do seu COMTUR. Transforme-o em Deliberativo. Quando o conselheiro sabe que o voto dele define o futuro da cidade, ele não falta à reunião. Empoderamento gera responsabilidade.

2. FUMTUR: o ímã de engajamento

Existe uma regra não escrita na gestão pública: “Quando tem dinheiro para gerir, a sala de reunião enche”.

É impossível manter um COMTUR motivado se não existe um Fundo Municipal de Turismo (FUMTUR) ativo e operante. Se o conselho discute apenas ideias abstratas, vira filosofia. Se o conselho discute onde investir os recursos, vira gestão.

O FUMTUR deve ser gerido pelo COMTUR (com fiscalização da Prefeitura). Quando o trade turístico percebe que participar do conselho significa decidir se a verba vai para a promoção do destino em uma feira ou para a sinalização turística, o interesse muda de figura.

O empresário deixa de ser um espectador crítico e passa a ser um co-gestor do destino.

3. Mate a burocracia na pauta (antes que ela mate o conselho)

Ninguém tem tempo a perder ouvindo leitura de ata em voz alta. Isso é coisa do século passado.

Para criar pautas que não dão sono, adote o modelo de Reunião Executiva:

  1. Ata por e-mail: a ata da reunião anterior deve ser enviada 3 dias antes. Na reunião, vota-se apenas a aprovação. Ninguém lê nada na hora. Economia de tempo: 20 minutos.
  2. Foco na decisão, não no relato: em vez de usar a reunião para o Secretário contar o que fez na semana (relato), use o tempo para apresentar problemas que precisam de solução e votação.
  3. Convidados especiais: traga especialistas de fora, cases de sucesso ou apresentações de projetos novos. O conselheiro precisa sentir que sai da reunião mais inteligente do que entrou.

4. O segredo das câmaras técnicas 

Um erro clássico é tentar discutir detalhes técnicos com o plenário todo (20 ou 30 pessoas). Vira uma assembleia de condomínio: muita falação e nenhuma conclusão.

A solução é criar Câmaras Técnicas (ou Grupos de Trabalho).

Como funciona:

  • Precisa revisar o Plano Municipal de Turismo? Não faça isso na reunião mensal.
  • Crie uma “Câmara Técnica de Legislação” com 3 ou 4 pessoas que entendem do assunto.
  • Eles se reúnem à parte, mastigam o problema e levam para a reunião do COMTUR apenas a proposta final para votação.

Isso tira o peso das costas do plenário e valoriza os talentos individuais dos conselheiros.

Governança não é favor, é estratégia de mercado

Um COMTUR forte blinda o turismo das trocas políticas. Prefeitos passam, secretários mudam, mas se o Conselho for forte, deliberativo e tiver o FUMTUR na mão, a política pública de turismo continua.

Deixar de ir às reuniões porque é chato é entregar o destino do seu negócio na mão de quem não entende do assunto.

Se você é gestor, pare de ter medo de dividir poder. Conselho forte é escudo para o Secretário. Se você é do trade, pare de reclamar no grupo de WhatsApp e ocupe sua cadeira com propostas.

O jogo só vira quando todos entendem que o concorrente não é o vizinho de cadeira, é o destino turístico ao lado que está mais organizado que o seu.

Quer levar a governança do seu destino para outro nível?

A organização do COMTUR é apenas o primeiro passo. Um destino inteligente precisa de estratégia, captação de recursos e projetos integrados.

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