O turismo que não forma liderança não cresce. E o problema não é falta de talento

Toda vez que chego em um município ou empreendimento para uma consultoria, uma das primeiras coisas que procuro observar não são os atrativos, não são os números e não são os documentos. Eu observo as pessoas. Especificamente, observo o que acontece quando o líder sai da sala.

A resposta a essa pergunta diz mais sobre o nível de desenvolvimento do turismo local do que qualquer planilha.

Em destinos que crescem de verdade, as coisas continuam funcionando quando o secretário está em uma reunião fora, quando o dono da pousada precisa tirar férias, quando o presidente do COMTUR fica doente. Existe uma estrutura, uma cultura e uma equipe que sustenta o processo.

Em destinos que estagnaram, tudo depende de uma pessoa. E essa dependência é o teto do crescimento.

O perfil do líder que o turismo precisa

Existe um tipo de líder muito comum no turismo brasileiro que chamo de hiper-operador. É aquela pessoa que faz tudo, sabe de tudo, decide tudo e não consegue delegar nada. Ela é fundamental para a operação diária, mas é um gargalo para o crescimento.

O hiper-operador não tem tempo para planejar porque está resolvendo o problema do café da manhã. Não tem energia para articular parcerias porque está cobrindo a falta do funcionário. Não consegue pensar no futuro porque está totalmente consumido pelo presente.

E o mais dramático: quando ele sai, seja por doença, por troca política ou simplesmente por cansaço, o que ele construiu muitas vezes desmorona. Porque o que estava sustentando não era uma estrutura. Era ele.

O turismo que cresce de forma consistente não precisa de heróis. Ele precisa de gestores que saibam construir equipes, distribuir responsabilidades e criar processos que funcionem independentemente de quem está no cargo.

Por que a formação de lideranças é negligenciada no setor

Eu entendo as razões pelas quais a formação de lideranças fica para segundo plano no turismo.

No setor privado, o empresário já está no limite da jornada e do orçamento. Investir em treinamento parece um luxo quando o caixa está apertado.

No setor público, a lógica é ainda mais perversa: o gestor investe tempo e recurso na formação de uma equipe, e na troca de governo essa equipe é desmontada. O ciclo político não favorece investimentos de longo prazo em pessoas.

Mas existe um paradoxo aqui que vejo se repetir constantemente. Quanto mais o gestor evita investir em formação porque não tem tempo ou recurso, mais ele fica preso na operação, mais dependente ele se torna de si mesmo, e menos tempo e recurso sobram para crescer.

Não investir em formação é a decisão mais cara que um líder do turismo pode tomar.

O que a formação de lideranças tem a ver com governança turística

Existe uma conexão direta entre a qualidade das lideranças e a qualidade da governança de um destino.

Conselhos Municipais de Turismo funcionam quando os seus membros sabem o que estão fazendo. Quando os conselheiros entendem o papel do COMTUR, conhecem os instrumentos de política pública disponíveis e sabem como conduzir uma reunião produtiva, o conselho funciona.

Quando os conselheiros são indicados sem formação, sem orientação sobre o papel que vão exercer e sem apoio para desenvolver as competências necessárias, o conselho vira o clube do cafezinho que descrevo em outros artigos.

Formação não é um evento pontual. Não é uma palestra de duas horas que resolve o problema. Formação é um processo contínuo de desenvolvimento de competências, de exposição a novas ideias, de trocas entre pares e de prática reflexiva sobre o que está sendo feito.

O que aprendi sobre liderança no turismo depois de mais de uma década em campo

Eu trabalhei com gestores públicos de municípios com menos de 10 mil habitantes e com lideranças de associações regionais com dezenas de municípios. Através desses diferentes contextos, algumas coisas ficaram muito claras para mim.

A primeira é que liderança no turismo não é um dom. É uma competência que se desenvolve. As pessoas que mais admiro no setor não nasceram sabendo articular o setor privado com o poder público, não nasceram sabendo conduzir uma reunião de COMTUR ou estruturar um plano de ação. Elas aprenderam. Erraram. Corrigiram. E continuaram.

A segunda é que o contexto importa tanto quanto o conteúdo. Não adianta ensinar técnicas de gestão desconectadas da realidade do território. O gestor de uma cidade do interior de Santa Catarina com vocação para turismo rural tem desafios completamente diferentes do gestor de um município litorâneo, do Ceará, que recebe 1 milhão de visitantes no verão. A formação precisa considerar esse contexto.

A terceira é que a maior alavanca de desenvolvimento do turismo em qualquer território não é o recurso financeiro. É a qualidade das pessoas que estão tomando as decisões. Com boas lideranças, até recurso escasso gera resultado. Com lideranças fracas, até recurso abundante se perde.

Três perguntas para o líder do turismo refletir hoje

Independentemente do seu papel, seja gestor público, empresário, conselheiro ou técnico da área, eu convido você a responder honestamente essas três perguntas.

  • Se eu sair da operação por 30 dias, o que para? Se a resposta for muita coisa, você tem um problema de dependência que precisa ser resolvido antes de qualquer estratégia de crescimento.
  • Eu sei identificar as pessoas ao meu redor que têm potencial de liderança? E, mais importante: estou fazendo algo para desenvolver esse potencial? Líder que não forma outros líderes constrói um legado de dependência, não de desenvolvimento.
  • Eu estou investindo no meu próprio desenvolvimento? Não existe separação entre a qualidade do líder e a qualidade do que ele entrega. Um gestor que para de aprender começa a ser superado pelos desafios que o cargo exige.

O turismo que o Brasil precisa construir nos próximos anos não vai ser construído com atrativos novos. Vai ser construído com gestores novos. Com uma nova forma de liderar, de planejar e de fazer o turismo funcionar de verdade.

Quer trazer essa reflexão para a sua equipe, para o seu município ou para o seu evento? Ministro palestras sobre liderança, gestão e governança no turismo para equipes de todo o Brasil, com conteúdo baseado em experiência real de campo. 

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