O turista não compra o atrativo. Ele compra a experiência. E essa diferença custa caro para quem não entende

Existe uma confusão muito comum entre donos de atrativos, pousadas e roteiros turísticos: a ideia de que o ativo físico é o produto. Que a cachoeira é o produto. Que o casarão histórico é o produto. Que a trilha é o produto.

Não é.

A cachoeira é o cenário. O produto é tudo que acontece em volta dela: como o visitante chega, quem o recebe, o que ele aprende no caminho, o que ele come, como ele se sente ao final do dia, o que ele conta para os amigos quando volta para casa.

Essa diferença parece filosófica, mas é profundamente prática. E ela é que separa os atrativos turísticos que ficam cheios dos que ficam vazios mesmo tendo beleza suficiente para encher os dois.

Por que o atrativo sozinho não sustenta um negócio

Eu trabalhei com um município que tinha uma cachoeira de dar inveja. Alta, limpa, com trilha de fácil acesso. O tipo de lugar que aparece nas revistas de turismo.

O problema: o fluxo de visitantes era irregular, o gasto médio era baixíssimo e os comerciantes locais reclamavam que o turismo não gerava impacto econômico real.

Quando fizemos o diagnóstico, ficou claro: o município tinha um atrativo, mas não tinha um produto. O visitante chegava, fotografava, tomava um banho e ia embora. Não existia nenhuma estrutura que transformasse a visita em uma experiência que justificasse pernoite, alimentação local, compra de artesanato ou retorno futuramente.

Potencial desperdiçado não é problema de atrativo. É problema de produto.

O que é de fato um produto turístico

Produto turístico é um conjunto estruturado de elementos que proporciona ao visitante uma experiência com início, meio e fim. Ele inclui:

  • A acessibilidade ao local: como se chega, como se informa previamente, como se reserva.
  • A recepção e a orientação no destino, pois o primeiro contato define a experiência toda.
  • As atividades e vivências que acontecem no local.
  • A alimentação e as opções de conforto disponíveis.
  • A história e a narrativa que o destino constrói em volta do que oferece.
  • O que o visitante leva de volta: seja uma lembrança física, um aprendizado ou uma emoção.

Cada um desses elementos precisa ser pensado, organizado e comunicado de forma coerente. Quando algum deles falha, toda a experiência é comprometida.

Você pode ter a cachoeira mais bonita do Brasil, mas se o acesso for confuso, a sinalização inexistente e o guia despreparado, o turista vai sair com uma impressão ruim. E impressão ruim não volta. E o pior: conta para os outros.

A narrativa como diferencial competitivo

Um dos elementos mais poderosos de um produto turístico é a história que ele conta. E um dos mais negligenciados.

Cada território tem uma história única. Comunidades que construíram modos de vida próprios, saberes que foram passados de geração em geração, paisagens que guardam memória. Tudo isso é material bruto para construir uma narrativa.

Narrativa não é mentira. Não é marketing vazio. É a capacidade de ajudar o visitante a entender o que ele está vendo, de dar contexto para o que ele está vivendo.

Um café da manhã com produtos da agricultura familiar local vale muito mais quando o guia explica de onde veio cada ingrediente, qual família cultivou, qual receita tem 200 anos de história na região. O café não mudou. Mas o significado dele mudou. E é o significado que o turista paga mais para ter.

Como estruturar um produto turístico que vende

A estruturação de um produto turístico não é um processo aleatório. Ele segue uma lógica que aplico no trabalho de consultoria com empresários e municípios.

1. Defina o seu público com precisão

Um produto para todo mundo é um produto para ninguém. Famílias com crianças pequenas têm necessidades completamente diferentes de casais em busca de aventura. Turistas culturais buscam experiências diferentes dos entusiastas de esportes na natureza. Saber para quem você está falando define tudo: o roteiro, o preço, a comunicação e os serviços de apoio.

2. Mapeie os pontos de contato da experiência

Coloque no papel toda a jornada do visitante, desde o momento em que ele descobre o seu destino nas redes sociais até o momento em que chega em casa. Cada etapa desse caminho é uma oportunidade de encantar ou de decepcionar. O mapeamento revela os pontos críticos onde a experiência tende a falhar.

3. Construa a narrativa central do produto

Qual é a história que o seu produto conta? Qual é o sentimento que você quer que o visitante tenha no final da experiência? Essa narrativa precisa estar presente em cada elemento do produto, da comunicação visual ao roteiro do guia.

4. Defina preço baseado em valor, não em custo

Um produto bem estruturado e bem comunicado sustenta um preço superior. O erro é precificar antes de construir o valor. Quando a experiência é cuidada em todos os detalhes, o visitante não compara o seu preço com o da pousada genérica ao lado. Ele compara com a qualidade da experiência que viveu.

5. Treine quem está na linha de frente

O melhor produto do mundo é destruído por um atendimento ruim. Investir na formação das pessoas que recebem o visitante não é custo. É parte essencial do produto. Guia bem treinado, recepção acolhedora, cozinheiro que conhece a história do prato que serve. Tudo isso compõe a experiência.

Turismo de qualidade não é acidente. É uma construção deliberada, feita de muitas decisões pequenas e corretas ao longo do tempo. E o destino ou empreendimento que entende isso sai na frente, independentemente do tamanho do atrativo que tem.

O seu empreendimento ou destino está pronto para transformar potencial em produto? A Acordum trabalha com estruturação de produtos turísticos para empresas e municípios. 

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