
Essa é uma das perguntas que mais me fazem quando estou em campo. O gestor me olha, aponta para o mapa ou para a janela, e diz: olha só o que nós temos aqui. Cachoeiras, história, gastronomia, cultura. Por que o turismo não decola?
A resposta quase nunca está no potencial. Potencial a maioria dos municípios tem. O que falta é o que vem depois do potencial: planejamento estratégico, estrutura de governança e, principalmente, vontade política sustentada ao longo do tempo.
Potencial turístico sem gestão é só paisagem.
O ciclo que se repete município após município
Eu já trabalhei com dezenas de municípios de diferentes tamanhos e realidades. E existe um ciclo que se repete com uma regularidade desconfortável.
Um novo prefeito assume e o turismo entra na pauta. O secretário é empossado, geralmente alguém de confiança política. As primeiras reuniões são animadas. Surge a ideia de um festival, de uma feirinha, de um material de divulgação.
Dois anos depois, as ações se fragmentaram. O festival aconteceu uma vez e não teve continuidade. O material de divulgação ficou desatualizado. O secretário mudou. Os empresários cansaram de esperar e pararam de participar das reuniões.
No final do mandato, o turismo está no mesmo lugar que estava no começo. Ou pior: tem um histórico de promessas que não se cumpriram, o que corrói a credibilidade do poder público junto ao trade para o próximo ciclo.
Por que isso acontece? Porque não existia um plano. Existia uma lista de ideias.
Ideia não é plano. Entenda a diferença
Plano Municipal de Turismo é um documento técnico que define para onde o município quer ir em termos de desenvolvimento turístico, quais são os obstáculos para chegar lá, quais ações serão tomadas, quem é responsável por cada uma, com qual prazo e com qual recurso.
Ideia é o festival gastronômico que o secretário teve no almoço de domingo.
Ambos podem coexistir. O festival pode ser uma das ações do plano. Mas sem o plano, o festival é apenas um evento isolado que não acumula nada para o destino. Não constrói marca, não cria fluxo contínuo, não educa o empresário local e não gera dados para as decisões futuras.
O plano cria a lógica de sustentação. Cada ação se soma à anterior. O destino evolui de forma intencional, não por acidente.
O que um Plano Municipal de Turismo realmente envolve
Existe uma visão equivocada de que plano é um documento que fica na gaveta. Quando o processo é feito da forma certa, o plano é exatamente o contrário disso. Ele é um instrumento vivo que orienta decisões do dia a dia.
Um plano bem construído passa por quatro grandes etapas:
- Diagnóstico. Antes de decidir para onde ir, é preciso entender onde se está. Isso inclui levantar a oferta turística do município, analisar a demanda atual e identificar os pontos críticos que limitam o crescimento.
- Planejamento estratégico participativo. As decisões sobre o futuro do turismo não podem ser tomadas por uma pessoa em uma sala fechada. O plano precisa ser construído com o envolvimento do setor privado, da comunidade e dos diferentes órgãos da prefeitura. Turismo é transversal, e o plano também precisa ser.
- Plano de Ação. É aqui que o documento ganha vida. Cada objetivo estratégico se desdobra em ações concretas, com responsável, prazo e fonte de recurso. Sem essa etapa, o planejamento fica no campo das intenções.
- Monitoramento. Um plano sem monitoramento é um plano esquecido. Precisa existir uma rotina de acompanhamento dos indicadores, com revisões periódicas que permitem corrigir o rumo quando necessário.
O papel da governança nesse processo
Nenhum plano sobrevive sem governança. E eu não estou falando de burocracia. Estou falando de um arranjo institucional que garanta que o turismo continue sendo prioridade independentemente de quem está ocupando o cargo de secretário.
O COMTUR forte, com representação real do setor privado e poder deliberativo, é a melhor blindagem que um destino pode ter contra a descontinuidade política. Quando o conselho funciona, a política de turismo não morre na transição de governo. Ela continua, porque não depende de uma pessoa só.
Eu costumo dizer que o maior patrimônio turístico de um município não é a sua cachoeira ou o seu festival. É a capacidade de planejar, executar e manter o que foi construído.
Por onde começam os municípios que dão certo
Não existe uma fórmula mágica, mas existe uma lógica que os destinos que crescem de forma consistente compartilham.
O primeiro passo é sempre o diagnóstico. Sem achismo, sem romantismo. Quem são os turistas que já vem? Que estrutura temos para recebê-los? O que está faltando?
O segundo passo é a articulação. O secretário de turismo que trabalha sozinho não chega longe. Precisa chamar a cultura, o meio ambiente, a educação, a saúde. Precisa sentar com os empresários sem pauta de conflito. Precisa construir junto.
O terceiro passo é o planejamento de longo prazo. Isso significa ter coragem de tomar decisões que não vão dar resultado no primeiro mandato. E isso é difícil politicamente, mas é o único caminho que gera desenvolvimento real.
Os municípios que dão certo não têm mais potencial que os outros. Eles têm mais gestão.
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